O CONVITE E A CHEGADA 25/JUN/12
Essas
janelas amplas dão uma boa perspectiva do movimento do lado de fora. Realmente
tem muito movimento, muito fluxo! Era tão ermo, tão distante essa ilha na
última vez que aqui estive...o nome, em si, um empíreo decaído: Fundão! “vou
para o fundão”. Eu havia dito essa frase apenas uma única vez, há cerca de 40
anos, a faculdade de engenharia havia se mudado definitivamente para cá e eu
precisava tirar uma dúvida com o professor Esteves. Foi, eu me lembro, um
périplo chegar até aqui, verdadeira epopeia homérica sem Argonautas. Havia um
fusca. Hoje disse a frase pela segunda vez. Pareceu-me tudo muito mais perto! A
vedação desta janela não está bem acabada. Há folga neste trilho, por isso o
vidro trepida ao vento. Ninguém pensou em projetar também um jardim! De que
servem janelas se não dão para jardins?! Terei que esperar pelos lápis que
pedi.
Pronto,
ei-los, os lápis. A gentil mocinha os conseguiu. Não estranhei tanto o fato de
serem curtos seus cabelos vermelhos, ou de haver uma tatuagem às costas. Estranhei
o fato da gentil mocinha ser aluna da engenharia, tendo ainda outras muitas
gentis senhoritas como colegas. Elas me sorriem com certa indulgência, é
simpático isso, mas um pouco melancólico o fardo do tempo, muda a qualidade dos
sorrisos. Eu dizia, tergiverso sei, que no meu tempo não havia muitas gentis
mocinhas no curso de Engenharia. Por “meu tempo” entenda-se a turma da
Politécnica de 1962, completo 50 anos de graduação em 2012 e seria perda de
tempo tentar reagrupar a turma, o nosso desmoronamento seria deprimente. Havia
apenas uma senhorita na turma: a Aniela, filha de poloneses, que vieram da
Europa escapando de muitas guerras. Havia o banheiro masculino e o banheiro da Aniela,
ao qual recorreríamos sem muitos melindres quando a sabíamos distante. Nenhuma
menina entraria mesmo além dela! Isso balanceava melhor a carga pela estrutura
física de sanitários do corredor.
Agora
o que eu faço? Fico aqui sentado, olhando pela janela sem jardim? Aguardo a
gentil mocinha adentrar e me perguntar algo? Ela sempre sorri com carinho, deve
pensar em seu avô... A ideia dela era encontrar alguém com 50 anos de formado
para debater temas num jornal. O que teria eu a dizer para esses moços e,
glória aos céus, moças da engenharia atual? Acho que tenho mais coisas a
perguntar, a aprender, perdi a paciência na corrida tecnológica e uso um
trivial básico de computador. Teria muito a aprender, ou não... tenho ainda
tanto a ler e nesta fase de vida a escolha do tempo é estratégica. Facebook
(assim que se escreve?) ou Proust? Pretendo terminar os sete tomos de “Em Busca
do Tempo Perdido”. Afinal, o que buscamos, o que perdemos deste tempo? Não
teria muito tempo a investir em outra coisa, a não ser que os que escrevem no
tal facebook escrevam melhor do que Proust...acho pouco provável. Não, desisto
de perguntar sobre o facebook. A gentil mocinha disse-me que eu teria um e-mail
e que eu escreveria para o jornal a partir do que os alunos propusessem,
questionassem, ou perguntassem neste e-mail. Será que alguém tem tempo a perder
com um velho? Esse tal facebook deve ser mais interessante.
Enfim,
enquanto aguardo vou anotar umas perguntas. Por que os nomes femininos de hoje
parecem chineses, monossilábicos? São todas Ro, Re, Pri, Nat.... Porque, justo
agora que a proporção da população masculina e feminina na Faculdade de
Engenharia está mais balanceada, todos os meninos andam com fones nos ouvidos?
Não seria o caso de aproveitar para conversar com alguém? Bem, não entendo mesmo,
sinto que terei muito a perguntar. Aguardo a gentil mocinha retornar, se ela
não tiver nada a perguntar, se ainda não houver nenhum e-mail, eu irei
perguntar o caso dos fones do ouvido. Preparo-me para a possibilidade dela também
abreviar meu nome e me chamar de Poli. Seria estranho, o Poli da
Politécnica....poderia ser pior, o Poli da Poli...não, por favor, me chamem de
Policarpo.
Excelente texto! Tô curioso pra ver o que mais tem a dizer o Policarpo!
ResponderExcluir