segunda-feira, 1 de outubro de 2012

FAZ-SE BELO


FAZ-SE BELO
Claro que se pode comer pão de forma, é menos trabalhoso. Contudo, quando se está aposentado a lógica de contabilidade do tempo é alterada. Não que esse recurso passe a ser abundante, ao contrário, tem-se cada vez mais a sensação de sua escassez e, mais ainda, da impossibilidade de sua estocagem. Acontece que, a partir de certo ponto, o tempo deixa de ser unidade de acúmulo, medida econômica de preenchimento de tarefas, para ser uma oportunidade de gozo, o que remete a escolhas complexas. Comer pão francês quente é uma delas, puramente em nome do prazer da casquinha crocante, levemente torrada. Isso implica nesse esforço de comprá-lo pela manhã. Isso não é necessariamente pesaroso em minha idade (mais de oito décadas ficaram pra trás) uma vez que não mais consigo dormir muitas horas seguidas. Sim, já fui boêmio em eras longínquas, mas hoje só consigo chegar ao final do jogo do Flamengo na TV em casos raros, ao passo que antes das cinco horas da manhã já começo a me revirar na cama. Bem dizer, dá logo uma ansiedade de sair de casa e comprar o pão.
Havia resolvido andar duas quadras mais para conferir o pão de outra padaria, que um conhecido de caminhada disse ser o melhor do mundo. Aliás, todos os meus contemporâneos conhecem o melhor pão do mundo, além do melhor fisioterapeuta do mundo, o melhor vendedor de mamão do mundo... Fui experimentar o tal melhor pão do mundo. Parecia que não era mau, dada a fila de espera, durante a qual, entre os pedidos que se amontoavam, pude ouvir, sobressaindo-se acima das freadas que os primeiros ônibus da manhã faziam no ponto em frente à padaria, o exótico canto de um passarinho. Demorei a perceber que era um pássaro, pois fazia pouco sentido naquele lugar. Fui seguindo o som, o que me custou o lugar na fila (já disse, nosso tempo é outro), e olhava para fora sem saber. Foi então que a Senhora que ocupava o caixa da padaria, vendo-me apurar os ouvidos para identificar a origem de tal belo canto, quebrou aquela incongruente harmonia sonora com uma sua voz rouca, como que adormecida por anos, apontando para uma gaiola presa na árvore da frente: “é essa praga de passarinho que faz esse escândalo todo! Ôh, bicho chato! Segunda-feira de manhã e ele já enchendo a paciência”. Assustado saí da padaria, fiquei morrendo de medo de comer um pão fabricado em um lugar como aquele.
Na volta para casa, meu bom e tradicional pãozinho comprado que deve ser o segundo melhor pão do mundo, tentava entender de onde viera aquela enxurrada de mau-humor, que tortuosos caminhos seriam capazes de causar tanto desencanto... Talvez em outro dia fosse diferente minha reação, mas foi numa dessas lindas manhãs de inverno azul que tem tido no Rio nestas semanas. Aliás, os franceses tem uma expressão divina para dias com esse céu: il fait beau. Ao pé da letra seria “faz-se belo”. E como faz-se belo o Rio no inverno! Naquele dia especialmente eu pude perceber cada mudança de nuance da matiz da aurora carioca. Por me levantar muito cedo, antes do sol, preparei-me um chá e fui para meu pequeno terraço de onde via a parte alta do céu que mantinha obstinadamente seu denso azul profundo, quando já acima de um terraço à leste tons róseos ameaçavam tingir as nuvens baixas. O rosa ganhou a metade do céu, abaixo dele surgiu o laranja, enquanto o azul, cada vez emergindo mais de sua letargia noturna, tornava-se aceso. Entre o Jasmim Manga e a sequência de Murtas, por detrás, os pontuais bem-te-vis que frequentam meu terraço tocavam a alvorada dissonante. Fiquei um longo tempo entre as cores e os sons, em certo torpor, talvez desejando ser músico ou pintor para prolongar aquele deleite dos sentidos. Pois nesse dia, a manhã ruía com a intolerância da Senhora diante do belo canto do pássaro. Estarrecia-me o fato por julgar completamente impensável conceber tal ponto de vista. Porém, esse pensamento dura muito pouco nessa fase da vida, acostumados que ficamos com as diferenças. Tendo experimentado difíceis momentos em que as diferenças não eram toleradas, aprendemos a conviver, e mesmo lutar, pelo direito às diferenças. Num gesto republicano, concedi a senhora sua legitimidade de percepção sensível, embora tenha exercido meu direito de não experimentar aquele tal pão. Daí a inelutável percepção que mesmo o canto do pássaro tinha significados tão distintos para mim e aquela Senhora. Esse objeto, a meu ver de poesia inata, era repudiado pela Senhora. Haveria, então, algum objeto de poesia natural? Ou existe o olhar poético sobre o objeto?
Imediatamente, por não sei qual associação, pensei na Marina, não a minha filha, mas uma sua xará, certamente mais nova e que estuda Engenharia Mecânica na UFRJ. Eu já havia respondido quase todos os gentis e-mails (muito obrigado a todos!) que me foram enviados (desculpem-me todos se demoro um pouco, o ritmo é outro), mas faltava o da Marina. Foi aquele que me parecia mais difícil de responder e não me vinha uma entrada no tema, o que tinha que explicar à gentil mocinha de cabelos vermelhos para justificar a demora em escrever minha página do mês. A gentil mocinha quase se mostrou impaciente, mas sua doçura a surpreende e ela sorri indulgente. Bem, diz a Marina (lindo o nome!) “... confesso que, ao ler esta [carta], senti meu coração aos saltos e a mente em estado de expansão [...] foi assim que me senti ao ler seu texto, contando sobre Da Vinci. Sempre fui apaixonada por esse gênio incrível; inclusive ele foi um dos motivos que me fez cursar Engenharia Mecânica...” Essas linhas que Marina escreve ilustram perfeitamente o paradigma do objeto poético que descrevi acima. Seria o torto texto desse rascunhador pretérito que ocupa esse espaço capaz de levar aos “saltos” um coração? ou estamos diante de um coração com tal estado de latente energia passional que pulsa estimulado apenas por sua capacidade (e vocação) de apaixonar-se, atingindo níveis maiores de energia de encanto? Seria Da Vinci um inconteste estímulo apaixonante para todos os Engenheiros Mecânicos, ou apenas um olhar apaixonado sobre a Engenharia Mecânica consegue descobrir um amor por Da Vinci?
A questão veio-me a mente pela forma como Marina termina seu e-mail, ela se diz “entristecida” por não encontrar em seus colegas o mesmo eco de paixão acerca do Da Vinci engenheiro. Marina, primeiramente, você ficar “entristecida” é o mesmo impulso de se dizer apaixonada, trata-se de mobilização intensa de desejo. Ademais, Marina, o que te garantiria que o objeto de sua paixão, a qual aliás compartilhamos, tem um caráter apaixonante que lhe seja inato? Deveriam todos os Engenheiros Mecânicos serem apaixonados pelos mesmo gênio? Não esqueçamos de James Watt, ou Frederick Taylor, só pra salvar alguns de meus outros ídolos. Qual o melhor guitarrista de todos os tempos? É possível que seus colegas venham a se apaixonar em um outro momento por algum objeto da Engenharia. É possível ainda que a relação com a Engenharia seja de outra natureza. Também é possível que seja de naturezas diferentes em momentos diferentes da vida, dependendo do olhar que se coloque sobre estes objetos. Afinal, Marina, Engenharia é Ciência ou é Arte? Não sei responder ao certo. O que me parece deste ponto da vida é que a forma como respondemos esta pergunta define o rumo de nossa prática profissional e, em nível mais amplo, torna-se um reflexo de nosso estar no mundo. A forma como definimos o nosso olhar e consequente sentir-fazer sobre o mundo, orienta o tipo de relação e limites de nosso encantamento. Haveria como ilustrar esta afirmação com muitas histórias, as quais não posso nem ameaçar começar a contar agora ou a gentil mocinha terá que limitar meu espaço no simpático jornalzinho.
Enfim, Marina, eu pretendia tratar deste tema de forma mais conceitual, mas aí fez-se belo, um pássaro cantou e meu lápis seguiu outro rumo no papel. Não se preocupe muito com estar “entristecida” Marina, cuide de seu encanto para que viceje, isso já exige muita energia. O que você ouve quando um pássaro canta? Em que minuto da aurora invernal o céu do Rio mais intensamente faz-se belo? 

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