FAZ-SE BELO
Claro que se pode comer pão de forma, é menos trabalhoso. Contudo,
quando se está aposentado a lógica de contabilidade do tempo é alterada. Não
que esse recurso passe a ser abundante, ao contrário, tem-se cada vez mais a
sensação de sua escassez e, mais ainda, da impossibilidade de sua estocagem.
Acontece que, a partir de certo ponto, o tempo deixa de ser unidade de acúmulo,
medida econômica de preenchimento de tarefas, para ser uma oportunidade de
gozo, o que remete a escolhas complexas. Comer pão francês quente é uma delas,
puramente em nome do prazer da casquinha crocante, levemente torrada. Isso
implica nesse esforço de comprá-lo pela manhã. Isso não é necessariamente
pesaroso em minha idade (mais de oito décadas ficaram pra trás) uma vez que não
mais consigo dormir muitas horas seguidas. Sim, já fui boêmio em eras
longínquas, mas hoje só consigo chegar ao final do jogo do Flamengo na TV em
casos raros, ao passo que antes das cinco horas da manhã já começo a me revirar
na cama. Bem dizer, dá logo uma ansiedade de sair de casa e comprar o pão.
Havia resolvido andar duas quadras mais para conferir o pão de
outra padaria, que um conhecido de caminhada disse ser o melhor do mundo.
Aliás, todos os meus contemporâneos conhecem o melhor pão do mundo, além do
melhor fisioterapeuta do mundo, o melhor vendedor de mamão do mundo... Fui
experimentar o tal melhor pão do mundo. Parecia que não era mau, dada a fila de
espera, durante a qual, entre os pedidos que se amontoavam, pude ouvir,
sobressaindo-se acima das freadas que os primeiros ônibus da manhã faziam no
ponto em frente à padaria, o exótico canto de um passarinho. Demorei a perceber
que era um pássaro, pois fazia pouco sentido naquele lugar. Fui seguindo o som,
o que me custou o lugar na fila (já disse, nosso tempo é outro), e olhava para
fora sem saber. Foi então que a Senhora que ocupava o caixa da padaria,
vendo-me apurar os ouvidos para identificar a origem de tal belo canto, quebrou
aquela incongruente harmonia sonora com uma sua voz rouca, como que adormecida
por anos, apontando para uma gaiola presa na árvore da frente: “é essa praga de
passarinho que faz esse escândalo todo! Ôh, bicho chato! Segunda-feira de manhã
e ele já enchendo a paciência”. Assustado saí da padaria, fiquei morrendo de
medo de comer um pão fabricado em um lugar como aquele.
Na volta para casa, meu bom e tradicional pãozinho comprado
que deve ser o segundo melhor pão do mundo, tentava entender de onde viera
aquela enxurrada de mau-humor, que tortuosos caminhos seriam capazes de causar
tanto desencanto... Talvez em outro dia fosse diferente minha reação, mas foi
numa dessas lindas manhãs de inverno azul que tem tido no Rio nestas semanas.
Aliás, os franceses tem uma expressão divina para dias com esse céu: il fait beau. Ao pé da letra seria
“faz-se belo”. E como faz-se belo o Rio no inverno! Naquele dia especialmente
eu pude perceber cada mudança de nuance da matiz da aurora carioca. Por me
levantar muito cedo, antes do sol, preparei-me um chá e fui para meu pequeno
terraço de onde via a parte alta do céu que mantinha obstinadamente seu denso
azul profundo, quando já acima de um terraço à leste tons róseos ameaçavam
tingir as nuvens baixas. O rosa ganhou a metade do céu, abaixo dele surgiu o
laranja, enquanto o azul, cada vez emergindo mais de sua letargia noturna,
tornava-se aceso. Entre o Jasmim Manga e a sequência de Murtas, por detrás, os
pontuais bem-te-vis que frequentam meu terraço tocavam a alvorada dissonante.
Fiquei um longo tempo entre as cores e os sons, em certo torpor, talvez
desejando ser músico ou pintor para prolongar aquele deleite dos sentidos. Pois
nesse dia, a manhã ruía com a intolerância da Senhora diante do belo canto do
pássaro. Estarrecia-me o fato por julgar completamente impensável conceber tal
ponto de vista. Porém, esse pensamento dura muito pouco nessa fase da vida,
acostumados que ficamos com as diferenças. Tendo experimentado difíceis
momentos em que as diferenças não eram toleradas, aprendemos a conviver, e
mesmo lutar, pelo direito às diferenças. Num gesto republicano, concedi a
senhora sua legitimidade de percepção sensível, embora tenha exercido meu
direito de não experimentar aquele tal pão. Daí a inelutável percepção que
mesmo o canto do pássaro tinha significados tão distintos para mim e aquela Senhora.
Esse objeto, a meu ver de poesia inata, era repudiado pela Senhora. Haveria,
então, algum objeto de poesia natural? Ou existe o olhar poético sobre o
objeto?
Imediatamente, por não sei qual associação, pensei na Marina, não a minha
filha, mas uma sua xará, certamente mais nova e que estuda Engenharia Mecânica
na UFRJ. Eu já havia respondido quase todos os gentis e-mails (muito obrigado a
todos!) que me foram enviados (desculpem-me todos se demoro um pouco, o ritmo é
outro), mas faltava o da Marina. Foi aquele que me parecia mais difícil de
responder e não me vinha uma entrada no tema, o que tinha que explicar à gentil
mocinha de cabelos vermelhos para justificar a demora em escrever minha página
do mês. A gentil mocinha quase se mostrou impaciente, mas sua doçura a
surpreende e ela sorri indulgente. Bem, diz a Marina (lindo o nome!) “...
confesso que, ao ler esta [carta], senti meu coração aos saltos e a mente em
estado de expansão [...] foi assim que me senti ao ler seu texto, contando
sobre Da Vinci. Sempre fui apaixonada por esse gênio incrível; inclusive ele
foi um dos motivos que me fez cursar Engenharia Mecânica...” Essas linhas que
Marina escreve ilustram perfeitamente o paradigma do objeto poético que
descrevi acima. Seria o torto texto desse rascunhador pretérito que ocupa esse
espaço capaz de levar aos “saltos” um coração? ou estamos diante de um coração
com tal estado de latente energia passional que pulsa estimulado apenas por sua
capacidade (e vocação) de apaixonar-se, atingindo níveis maiores de energia de
encanto? Seria Da Vinci um inconteste estímulo apaixonante para todos os
Engenheiros Mecânicos, ou apenas um olhar apaixonado sobre a Engenharia
Mecânica consegue descobrir um amor por Da Vinci?
A questão veio-me a mente pela forma como Marina termina seu e-mail, ela
se diz “entristecida” por não encontrar em seus colegas o mesmo eco de paixão
acerca do Da Vinci engenheiro. Marina, primeiramente, você ficar “entristecida”
é o mesmo impulso de se dizer apaixonada, trata-se de mobilização intensa de
desejo. Ademais, Marina, o que te garantiria que o objeto de sua paixão, a qual
aliás compartilhamos, tem um caráter apaixonante que lhe seja inato? Deveriam
todos os Engenheiros Mecânicos serem apaixonados pelos mesmo gênio? Não
esqueçamos de James Watt, ou Frederick Taylor, só pra salvar alguns de meus
outros ídolos. Qual o melhor guitarrista de todos os tempos? É possível que
seus colegas venham a se apaixonar em um outro momento por algum objeto da
Engenharia. É possível ainda que a relação com a Engenharia seja de outra
natureza. Também é possível que seja de naturezas diferentes em momentos
diferentes da vida, dependendo do olhar que se coloque sobre estes objetos.
Afinal, Marina, Engenharia é Ciência ou é Arte? Não sei responder ao certo. O
que me parece deste ponto da vida é que a forma como respondemos esta pergunta
define o rumo de nossa prática profissional e, em nível mais amplo, torna-se um
reflexo de nosso estar no mundo. A forma como definimos o nosso olhar e
consequente sentir-fazer sobre o mundo, orienta o tipo de relação e limites de nosso
encantamento. Haveria como ilustrar esta afirmação com muitas histórias, as
quais não posso nem ameaçar começar a contar agora ou a gentil mocinha terá que
limitar meu espaço no simpático jornalzinho.
Enfim, Marina, eu pretendia tratar deste tema de forma mais conceitual,
mas aí fez-se belo, um pássaro cantou e meu lápis seguiu outro rumo no papel.
Não se preocupe muito com estar “entristecida” Marina, cuide de seu encanto
para que viceje, isso já exige muita energia. O que você ouve quando um pássaro
canta? Em que minuto da aurora invernal o céu do Rio mais intensamente faz-se
belo?
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