Instrução de leitura: se você tem pressa, pode começar a ler
na marca (*1 Pressa); se tem muita
pressa mesmo, pode ler apenas o parágrafo com a marca (*2 Muita Pressa Mesmo)
DESVIO DE CURSO
“o que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?”
Carlos Drummond de Andrade
O que pode um homem senão, entre mulheres, obedecer? Esta
paráfrase de Drummond pode ser pouco nobre, mas tem seu fundamento. Em viagem
de carro, pelo interior da França, Lígia (minha esposa), Marina (minha filha) e
Luísa (minha neta) dividiam comigo o pequeno Citröen alugado. Aposentadoria,
férias mais longas nas quais inventamos ocupações. Eu havia morado na França,
no final dos anos 60, quando terminei um casamento e aceitei o convite para um
curso de especialização na SNFC (a estatal francesa de Ferrovias). Por conta
disso, eu era durante nossa viagem uma espécie de consultor ad-hoc: consultado sim, mas alheado dos
processos decisórios. Eu poderia traduzir o cardápio, mas nunca escolher o
prato, “pomme de terre é batata Luísa,
mas que tal a Bouillabaisse, já que
estamos em Marselha?” Batatas e filés grelhados toda a viagem. A rota tampouco
era possível de ser influenciada. O fato do mapa deixar claro a direção Norte,
não impedia que ele fosse virado em todas as direções, propondo as conexões
mais esdrúxulas, subindo e descendo sem nenhuma lógica de redução de percurso,
tendo a favor o argumento “ah, mas a estrada é tão boa, rapidinho chegamos...”.
A nossa rota escreveu um “M” no mapa Francês.
Estávamos na Borgonha e a decisão era conhecer os castelos do
Vale do Loire, na internet as fotos de Chenonceau
sobre as águas e Chambord colossal...
Foi quando coloquei meu plano em prática, confundi-me com uma placa que nos fez
parar na cidade de Amboise já de tardinha. A ideia era ir direto até o meio do
Vale, mas tive muita dificuldade em descobrir a saída e talvez chegássemos lá
muito tarde, com dificuldade de encontrar hotel em bom preço. Elas reclamaram
um pouco, mas como era apenas para dormir e sair cedo rumo à casa da cinderela
no dia seguinte, uma bela praça onde servia-se uma pizza (eu disse pizza!
Céus!) diminuiu as resistências. No dia seguinte, eu errei novamente uma placa
e fomos para o lado errado da cidade, por acaso chegando diante do Castelo de Clos Lucé.
-
Que lugar é esse pai?
-
Não sei, mas diz que é um castelo, vamos entrar?
-
Que mixuruca vô, eu quero aquele grandão, da
Cinderela. A casa da minha amiga é maior que este castelinho aí.
-
Ora, Policarpo, não faça as meninas perderem
tempo, você é sempre tão preciso nas placas, devia era beber menos vinho...
desde ontem você não acerta nada...
Fingi decepção e falei que daria apenas uma olhada. Voltei com
ingressos para todos, afinal “era uma promoção especial só pra hoje”. Começaram
os gritos, negativas e Ligia sugeriu doar o ingresso ao primeiro que parasse e partir
imediatamente rumo ao castelo correto, no que Luísa pontificou “aquele da
cinderela”... ao que sugeri: “já que está comprado, melhor entrar nem que seja
para ir ao banheiro e tomar um sorvete para pegar a estrada”. Marina veio
comigo, Luísa disse que ficava no carro e a avó não quis deixar a menina. Resolvi
andar muito, muito devagar e deixei os óculos no carro, contei até dez....oito,
nove... “Policarpo, nesse passo você não chega nunca, toma aqui seus óculos”,
corria Ligia trazendo as lentes numa mão e Luísa na outra, entramos todos.... Era
o local que teria servido de última morada de Leonardo da Vinci e que havia
sido transformado em parque. (*1 Pressa) Da Vinci é meu grande ídolo da
Engenharia, mas se eu explicasse isso jamais elas entrariam ali....
Finalmente cheguei a falar algo que parecesse com Engenharia,
demoro, eu sei, tenho muito tempo livre. Bem, vou entregar esta parte para a
gentil mocinha digitar e perguntar se ela prefere que eu escreva como foi a
visita agora, ou no número seguinte. Os jovens tem pressa, contam linhas,
contam caracteres...parece que o ideal é cento e quarenta caracteres... o que
Saramago disse ser o retorno ao “estágio do grunhido”... aguardo a volta
dela... subo à primeira linha e acrescento uma instrução de leitura, assim quem
tem pressa não perde tempo. Afinal, ganhar esse tempo para o que? Investir no
que?
Ela consentiu que eu terminasse, muito gentil essa mocinha de
cabelos vermelhos. Bem, porque fui falar do Da Vinci? Foi o que me passou na
cabeça diante da pergunta da Adriana, num e-mail gentil, sobre achar estranho
uma coluna sobre engenharia pouco antes de roteiro cultural e cursos de teatro,
parecia simpático, mas desconexo. Aliás, agradeço ainda aos demais e-mails... Daí,
pensei em escrever para a Adriana algo sobre isso, essa aparente incongruência
entre arte e engenharia.
Adriana, na porta de entrada deste castelo tem uma carta de
Leonardo para um nobre, na qual ele oferece seus “serviços”, algo como um curruculum vitae. Não lembro com
precisão, na minha idade... “para honra de V.Sa, proponho esculpir uma estátua
equestre em bronze....; para glória de Vosso nome, proponho renovar os afrescos
da capela com novas pinturas de....; para prosperidade de Vossa terra, proponho
um sistema de irrigação de....; para a proteção de Vosso palácio, proponho a
construção de canhões .... e de carros blindados.... e .....;” É admirável.
Mesmo Ligia teve que concordar ao ler. Viramos para o jardim e havia uma
réplica do seu projeto de helicóptero. Luísa correu para girar o volante que
movimentava as hélices. Eu expliquei a ela quem tinha sido Da Vinci e a ideia
de Helicóptero. “Se eu rodar o volante mais forte eu vou voar?”... tive que
explicar a Luísa que a engenhosidade de Da Vinci esbarrava nos sistemas de
força motriz de seu tempo. Ele estava restrito à tração animal (ou humana) e
aos cursos d’água, que aproveitava com muita engenhosidade com complexos
sistemas de transferência de potência. A IBM havia feito réplicas de seus
projetos e fui passando por cada um, explicando primeiro para a Luísa e depois
tendo que responder as perguntas de Marina que finalmente entendeu o princípio
das marchas da bicicleta ao comparar com outros sistemas de redução de potência
utilizados por Da Vinci. Passeávamos entre maquetes e desenhos de: carro de
combate blindado, helicóptero, ponte retrátil, barco com roda de pás, canhão de
tiro em série, planador, protótipo de escafandro, paraquedas… não consigo
lembrar tudo. Acrescentei ainda aspectos sobre o “autômato”, uma espécie de
robô que ele criou para diversão do Duke de Sforza em 1495 que, projetado sobre
correias e polias realizava movimentos independentes. Contei ainda que vi
nesses canais de TV a cabo alguém pulando de um avião com um paraquedas feito
com base no projeto de Da Vinci e construído apenas com materiais disponíveis
na época. Como o cidadão aterrissou vivo, pareceu-me que o projeto funcionava. Em
pouco tempo Leonardo tinha mais duas fãs. Dos protótipos passamos aos
aposentos, tendo nas paredes não apenas esboços de projetos, como conceitos
extraídos de sua reflexão sobre a natureza do conhecimento. “Todo conhecimento
se inicia com sentimentos...” ou algo parecido, já disse que a memória é fraca.
(*2 Muita Pressa Mesmo) Uma pergunta que vale a pena fazer,
Adriana, é a seguinte: Leonardo da Vinci possuía uma enorme capacidade de
reflexão dividida em vários imensos compartimentos distintos, ou sua capacidade
inventiva era influenciada e potencializada pelo fato de ter um único
compartimento com múltiplos acesso à realidade. De outra forma, Da Vinci troca
de canal de racionalidade quando passa da escultura a pintura, e dessa para a
engenharia, ou ele teria uma forma única de acesso ao mundo que perpassa os diversos
objetos de sua criação? Trata-se de uma questão meramente especulativa, para
nos fazer refletir, tão somente. Como eu sou leigo no assunto, ouso dar minha
opinião descompromissada... a julgar pelas coisas escritas de Leo (neste ponto
já estamos íntimos), o próprio conceito de racionalidade seria impróprio. A
racionalidade vista como singularização de determinada forma de raciocínio, de
uso da razão, não faria sentido, pois o seu pensamento é indivisível, é
integrado e único. Nesse sentido, perguntar para Da Vinci se ele era engenheiro
ou artista não faria muito sentido, pois o impulso criador era único, as
ferramentas, as disciplinas sim, eram diversas, mas o impulso é único. Assim,
Adriana, o que você achou estranho da mistura de engenharia e arte seria o
normal para Da Vinci. Parece que funciona...
Bem, já enchi um monte de páginas, rabisquei essas folhas
todas e terei que pedir a gentil mocinha que digite tudo novamente. Ela me
pediu para ser mais sucinto, eu sei, mas com o tempo vejo que boa parte da
economia de tempo que fiz foi perda de qualidade do tempo.... Prometo, Adriana,
falar deste assunto num outro mês, de forma menos prosaica. Vou até rever
alguns livros para tentar melhorar as ideias.
Bem, como terminou a visita ao castelo de Clós Lucé? Estávamos novamente no carro, Marina ao volante, eu segurando
meu silêncio, quando Ligia comentou que ficara impressionada com tudo aquilo de
Leonardo da Vinci.
- Que bom que você resolveu entrar, você gosta tanto do quadro
da Anunciação do Da Vinci.
- Que não estava lá, claro! Nesse parquinho mixuruca. – ela não
se entregava – Eu não sabia que o Da Vinci tinha sido engenheiro?
- Nem eu... – Neste monto eu me concentrei ao máximo, mas não
resisti, sorri...
- Policarpo, seu....! Agora eu entendi tudo...
- Tudo o que, vó?
- Tudo que eu sempre soube do seu avô... – nem ela segurou o
riso, me deu a mão e continuamos nossa viagem rumo a casa da Cinderela.
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