segunda-feira, 1 de outubro de 2012

DESVIO DE CURSO


Instrução de leitura: se você tem pressa, pode começar a ler na marca (*1  Pressa); se tem muita pressa mesmo, pode ler apenas o parágrafo com a marca (*2 Muita Pressa Mesmo)
DESVIO DE CURSO

“o que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?”
Carlos Drummond de Andrade

O que pode um homem senão, entre mulheres, obedecer? Esta paráfrase de Drummond pode ser pouco nobre, mas tem seu fundamento. Em viagem de carro, pelo interior da França, Lígia (minha esposa), Marina (minha filha) e Luísa (minha neta) dividiam comigo o pequeno Citröen alugado. Aposentadoria, férias mais longas nas quais inventamos ocupações. Eu havia morado na França, no final dos anos 60, quando terminei um casamento e aceitei o convite para um curso de especialização na SNFC (a estatal francesa de Ferrovias). Por conta disso, eu era durante nossa viagem uma espécie de consultor ad-hoc: consultado sim, mas alheado dos processos decisórios. Eu poderia traduzir o cardápio, mas nunca escolher o prato, “pomme de terre é batata Luísa, mas que tal a Bouillabaisse, já que estamos em Marselha?” Batatas e filés grelhados toda a viagem. A rota tampouco era possível de ser influenciada. O fato do mapa deixar claro a direção Norte, não impedia que ele fosse virado em todas as direções, propondo as conexões mais esdrúxulas, subindo e descendo sem nenhuma lógica de redução de percurso, tendo a favor o argumento “ah, mas a estrada é tão boa, rapidinho chegamos...”. A nossa rota escreveu um “M” no mapa Francês.
Estávamos na Borgonha e a decisão era conhecer os castelos do Vale do Loire, na internet as fotos de Chenonceau sobre as águas e Chambord colossal... Foi quando coloquei meu plano em prática, confundi-me com uma placa que nos fez parar na cidade de Amboise já de tardinha. A ideia era ir direto até o meio do Vale, mas tive muita dificuldade em descobrir a saída e talvez chegássemos lá muito tarde, com dificuldade de encontrar hotel em bom preço. Elas reclamaram um pouco, mas como era apenas para dormir e sair cedo rumo à casa da cinderela no dia seguinte, uma bela praça onde servia-se uma pizza (eu disse pizza! Céus!) diminuiu as resistências. No dia seguinte, eu errei novamente uma placa e fomos para o lado errado da cidade, por acaso chegando diante do Castelo de Clos Lucé.
-          Que lugar é esse pai?
-          Não sei, mas diz que é um castelo, vamos entrar?
-          Que mixuruca vô, eu quero aquele grandão, da Cinderela. A casa da minha amiga é maior que este castelinho aí.
-          Ora, Policarpo, não faça as meninas perderem tempo, você é sempre tão preciso nas placas, devia era beber menos vinho... desde ontem você não acerta nada...
Fingi decepção e falei que daria apenas uma olhada. Voltei com ingressos para todos, afinal “era uma promoção especial só pra hoje”. Começaram os gritos, negativas e Ligia sugeriu doar o ingresso ao primeiro que parasse e partir imediatamente rumo ao castelo correto, no que Luísa pontificou “aquele da cinderela”... ao que sugeri: “já que está comprado, melhor entrar nem que seja para ir ao banheiro e tomar um sorvete para pegar a estrada”. Marina veio comigo, Luísa disse que ficava no carro e a avó não quis deixar a menina. Resolvi andar muito, muito devagar e deixei os óculos no carro, contei até dez....oito, nove... “Policarpo, nesse passo você não chega nunca, toma aqui seus óculos”, corria Ligia trazendo as lentes numa mão e Luísa na outra, entramos todos.... Era o local que teria servido de última morada de Leonardo da Vinci e que havia sido transformado em parque. (*1 Pressa) Da Vinci é meu grande ídolo da Engenharia, mas se eu explicasse isso jamais elas entrariam ali....
Finalmente cheguei a falar algo que parecesse com Engenharia, demoro, eu sei, tenho muito tempo livre. Bem, vou entregar esta parte para a gentil mocinha digitar e perguntar se ela prefere que eu escreva como foi a visita agora, ou no número seguinte. Os jovens tem pressa, contam linhas, contam caracteres...parece que o ideal é cento e quarenta caracteres... o que Saramago disse ser o retorno ao “estágio do grunhido”... aguardo a volta dela... subo à primeira linha e acrescento uma instrução de leitura, assim quem tem pressa não perde tempo. Afinal, ganhar esse tempo para o que? Investir no que?
Ela consentiu que eu terminasse, muito gentil essa mocinha de cabelos vermelhos. Bem, porque fui falar do Da Vinci? Foi o que me passou na cabeça diante da pergunta da Adriana, num e-mail gentil, sobre achar estranho uma coluna sobre engenharia pouco antes de roteiro cultural e cursos de teatro, parecia simpático, mas desconexo. Aliás, agradeço ainda aos demais e-mails... Daí, pensei em escrever para a Adriana algo sobre isso, essa aparente incongruência entre arte e engenharia.
Adriana, na porta de entrada deste castelo tem uma carta de Leonardo para um nobre, na qual ele oferece seus “serviços”, algo como um curruculum vitae. Não lembro com precisão, na minha idade... “para honra de V.Sa, proponho esculpir uma estátua equestre em bronze....; para glória de Vosso nome, proponho renovar os afrescos da capela com novas pinturas de....; para prosperidade de Vossa terra, proponho um sistema de irrigação de....; para a proteção de Vosso palácio, proponho a construção de canhões .... e de carros blindados.... e .....;” É admirável. Mesmo Ligia teve que concordar ao ler. Viramos para o jardim e havia uma réplica do seu projeto de helicóptero. Luísa correu para girar o volante que movimentava as hélices. Eu expliquei a ela quem tinha sido Da Vinci e a ideia de Helicóptero. “Se eu rodar o volante mais forte eu vou voar?”... tive que explicar a Luísa que a engenhosidade de Da Vinci esbarrava nos sistemas de força motriz de seu tempo. Ele estava restrito à tração animal (ou humana) e aos cursos d’água, que aproveitava com muita engenhosidade com complexos sistemas de transferência de potência. A IBM havia feito réplicas de seus projetos e fui passando por cada um, explicando primeiro para a Luísa e depois tendo que responder as perguntas de Marina que finalmente entendeu o princípio das marchas da bicicleta ao comparar com outros sistemas de redução de potência utilizados por Da Vinci. Passeávamos entre maquetes e desenhos de: carro de combate blindado, helicóptero, ponte retrátil, barco com roda de pás, canhão de tiro em série, planador, protótipo de escafandro, paraquedas… não consigo lembrar tudo. Acrescentei ainda aspectos sobre o “autômato”, uma espécie de robô que ele criou para diversão do Duke de Sforza em 1495 que, projetado sobre correias e polias realizava movimentos independentes. Contei ainda que vi nesses canais de TV a cabo alguém pulando de um avião com um paraquedas feito com base no projeto de Da Vinci e construído apenas com materiais disponíveis na época. Como o cidadão aterrissou vivo, pareceu-me que o projeto funcionava. Em pouco tempo Leonardo tinha mais duas fãs. Dos protótipos passamos aos aposentos, tendo nas paredes não apenas esboços de projetos, como conceitos extraídos de sua reflexão sobre a natureza do conhecimento. “Todo conhecimento se inicia com sentimentos...” ou algo parecido, já disse que a memória é fraca.
(*2 Muita Pressa Mesmo) Uma pergunta que vale a pena fazer, Adriana, é a seguinte: Leonardo da Vinci possuía uma enorme capacidade de reflexão dividida em vários imensos compartimentos distintos, ou sua capacidade inventiva era influenciada e potencializada pelo fato de ter um único compartimento com múltiplos acesso à realidade. De outra forma, Da Vinci troca de canal de racionalidade quando passa da escultura a pintura, e dessa para a engenharia, ou ele teria uma forma única de acesso ao mundo que perpassa os diversos objetos de sua criação? Trata-se de uma questão meramente especulativa, para nos fazer refletir, tão somente. Como eu sou leigo no assunto, ouso dar minha opinião descompromissada... a julgar pelas coisas escritas de Leo (neste ponto já estamos íntimos), o próprio conceito de racionalidade seria impróprio. A racionalidade vista como singularização de determinada forma de raciocínio, de uso da razão, não faria sentido, pois o seu pensamento é indivisível, é integrado e único. Nesse sentido, perguntar para Da Vinci se ele era engenheiro ou artista não faria muito sentido, pois o impulso criador era único, as ferramentas, as disciplinas sim, eram diversas, mas o impulso é único. Assim, Adriana, o que você achou estranho da mistura de engenharia e arte seria o normal para Da Vinci. Parece que funciona...
Bem, já enchi um monte de páginas, rabisquei essas folhas todas e terei que pedir a gentil mocinha que digite tudo novamente. Ela me pediu para ser mais sucinto, eu sei, mas com o tempo vejo que boa parte da economia de tempo que fiz foi perda de qualidade do tempo.... Prometo, Adriana, falar deste assunto num outro mês, de forma menos prosaica. Vou até rever alguns livros para tentar melhorar as ideias.
Bem, como terminou a visita ao castelo de Clós Lucé? Estávamos novamente no carro, Marina ao volante, eu segurando meu silêncio, quando Ligia comentou que ficara impressionada com tudo aquilo de Leonardo da Vinci.
- Que bom que você resolveu entrar, você gosta tanto do quadro da Anunciação do Da Vinci.
- Que não estava lá, claro! Nesse parquinho mixuruca. – ela não se entregava – Eu não sabia que o Da Vinci tinha sido engenheiro?
- Nem eu... – Neste monto eu me concentrei ao máximo, mas não resisti, sorri...
- Policarpo, seu....! Agora eu entendi tudo...
- Tudo o que, vó?
- Tudo que eu sempre soube do seu avô... – nem ela segurou o riso, me deu a mão e continuamos nossa viagem rumo a casa da Cinderela.

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